Cresci num tempo de imobilidade. O fim da Guerra Fria, a queda do muro de Berlim, a União Europeia com o seu Hino à Alegria fizeram com que se proclamasse o Fim da História. Mas ela move-se incessantemente. Independentemente dos discursos de estabilidade da classe dominante, as pessoas vivem. Desejam. Sentem. Ainda que anestesiados, amordaçados, aprisionados à condição servil de quem, num mundo de trocas, apenas possui a sua força de trabalho para vender e, que por isso, abdica de opiniões próprias quando estas são julgadas negativamente pela moral vigente. Mesmo quando a manifestação dos desejos é manipulada após a garantia de alienação, a exclusão, a escravidão, a dor, a fome, geram a revolta.
À nossa volta existe sofrimento, mas quando o que vemos é a felicidade propagandeada pela “nossa” sociedade ocidental que, ao mesmo tempo que nos mostra a miséria do mundo, nos afasta dela, querer manter instintivamente os privilégios actuais é o natural.
Indubitavelmente, as classes dominantes locais aliam-se, pelo menos em certa medida, pela manutenção do seu poder. Assim, existem governos que, no nosso país ou noutros, são eleitos pelo povo mas que não governam para ele. Existem empresas responsáveis pela produção de todos os objectos que usamos na nossa vida que, ao invés de produzirem segundo as necessidades, fazem-no unicamente segundo a lógica do lucro. E estes governos e empresas consomem o planeta em que vivemos para que nos consumamos aos poucos, sem tumulto.
Num mundo que todos dizem globalizado, perdemos a capacidade de nos identificar com os outros. Com os seus problemas, com as suas lutas. As imagens não param de nos chegar: crianças desnutridas morrem lentamente no Darfur; imigrantes africanos definham em barcos sobrelotados às portas da Europa; mulheres russas são escravas sexuais na civilizada Finlândia. E tudo nos parece acontecer numa outra realidade. Povos resistem ao terrorismo de estado dos E.U.A. e Israel na Palestina, Líbano e Iraque; estudantes gregos ocupam quatrocentas faculdades durante meses, lutando contra a privatização do ensino superior; oitenta mil trabalhadores portugueses manifestam-se em Lisboa contra as investidas neo-liberais do governo Sócrates. E não tomamos nenhuma destas lutas como nossas.
Num mundo de relações tão complexas e onde milhões de seres vêem os seus desejos e necessidades serem postos em causa de formas muito díspares, tornou-se muito mais difícil identificar o inimigo a combater. A repressão é agora feita através da disciplinação de consciências e não tanto através do controlo por parte de instituições físicas. Durante a ditadura fascista portuguesa existia a censura, a P.I.D.E., o Tarrafal, e o povo unia-se face ao inimigo comum, personificado em Salazar. Actualmente, cerca de 20% da população vive com menos de um euro por dia, 10% da população em idade activa está desempregada, os serviços de Saúde e Educação, desrespeitando a Constituição, são, cada vez mais, tendencialmente privados e pagos, porém o inimigo não é visível.
Por outro lado, a capa de Democracia e Liberdade que reveste o mundo do “Eixo do Bem”, por oposição à Heresia e Malevolência, características do “Eixo do Mal”, incute a ideia de que este sistema permite aos seus cidadãos, simultaneamente, a expressão dos seus problemas e o caminho para a sua resolução.
A informação está em toda a parte e é avassaladora, mas ao invés de nos impelir para a acção, aliena-nos. Demasiada informação, contraditória entre si, faz-nos acreditar que o problema é de todo irresolúvel, que não está ao alcance do indivíduo uma solução viável, pelo que, a maioria, opta pela inacção e alheamento. Ainda assim, talvez a imobilidade seja uma ilusão. Um erro de perspectiva de quem, observando a calma das águas à superfície, não se apercebe das correntes que se movem abaixo desta. É essencial organizarmo-nos numa luta contra o véu da inconsciência que nos cobre. A união faz a força.
Se a Humanidade é posta em causa pela exploração do homem pelo homem, se a Vida é ameaçada pela absurda produção capitalista que, não sendo planeada, se desligou do fim a que se deveria dirigir – o suprimento de necessidades – substituindo-o pela criação de necessidades de que depende para se manter, é a destruição de ambos (exploração e produção capitalistas) que devemos exigir.