terça-feira, novembro 28

"Flexigurança"

Estamos em directo na SIC Notícias. Hoje, no programa Opinião Pública, está em debate a aplicabilidade do modelo "Flexigurança" no mercado de trabalho português, bem como as respectivas implicações na lei laboral. Os entendidos referem que este esquema é actualmente aplicado nos países nórdicos, com grande sucesso.
"Flexigurança" é, como podem inferir, um neologismo resultante da aglutinação de "FLEXIBILIDADE" com "SEGURANÇA". Latentes, parecem estar uma incoerência, um paradoxo, uma falácia. Pretende facilitar os actos de contrato e despedimento, estimulando assim a flexibilidade dos trabalhadores e dos quadros de recursos humanos em que estes se incluem, incentivando a competitividade* entre as empresas. Pretende, simultaneamente, promover níveis mais elevados de segurança e protecção dos desempregados. Quanto ao primeiro propósito, parece-me que consistirá na alteração de alguns aspectos do regulamento burocrático. Quanto à segunda afirmação, intriga-me - por me parecer demasiado vaga para ser credível.
* Salvaguardo que, contra a competitividade per se, não tenho nada. Nem com o próprio, nem com os outros. Parece-me até ser eficaz na contribuição para a concretização de etapas evolutivas. No entanto, admiro o fair play. Facilitar os despedimentos soa-me a induzir foras-de-jogo.

FEIRA LAICA


OUT FEST 2006

EYE8SOCCER live @ samizdata 28.10.2006




Grande Lançamento

Apanhámos uma molha que ia levando os Des1bigas todos, mas valeu a pena. Porque afinal foi mais gente que a redacção, lemos umas coisas e lançámos a revista. Divertimo-nos e o resto é conversa.
A repetir, no número 13.

segunda-feira, novembro 27

O porquê de ser do Des1biga

Está ali, simplesmente à mão de semear de todos os que vagueiam pelos corredores entrelaçados, obscuros e incompreensíveis do hospital. Está ali, ninguém sabe muito bem porquê. Está ali porque os cérebros carcomidos pela disputa da sua própria exterminação mantêm algo de ingénuo e único. Surgem processos criativos – junções de ideias – a um ritmo inconstante, ora demente ora orgásmico, para morrerem antes de chegar ao mar como o rio de são Pedro de Moel. São esboços dos esgares das almas perdidas que se misturam com as da sua origem, os mortos e as angústias de um terreno permanentemente mutilado. Será do nosso olhar que nasce esta sede? Voltas e mais voltas, fica tudo no mesmo. Voltas e mais voltas, fica tudo, mesmo mesmo tudo assim, estático, como se o que se tivesse passado fora apenas um retrato de um louco – como se esses houvessem! – e de nós resta-nos o passar por ali, onde o mundo acaba e começa, onde as paredes são escuras… Vêem? É assim que acontece. No curto-circuito - da auto percepção das redes que atravessam corpos calosos, hipocampos e interligam hemisférios - que se dá naquele ponto preciso do nosso córtex pré-frontal, nasce a imagem de que também pudemos escrever. Na orgia dos nossos corpos enfastiados, das nossas mãos desengonçadas, da nossa boca empastada com tanto empastamento, dos nossos olhos cegos e das nossas pernas e genitais o horror de se atingir o âmago do vazio, ficamos assim, parados a olhar o vácuo e outras vezes com a caneta na mão, a escrever.

Lançamento URBANUS

Hoje à noite,
. no Loucos & Sonhadores, Bairro Alto.

Aparecer.

sábado, novembro 25

Vive la Différence!

Diferenças e Tolerância

Liberté, Egalité et Fraternité ou la mort!Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Valores muito en vogue por altura da Revolução Francesa, parecem ter-se tornado demodés – ou então como se justifica que existam ainda, na actualidade, movimentos e forças que se manifestam contra a dignidade ou mesmo legalidade da idiossincrasia? E entenda-se, a Igualdade de Napoleão representa a unidade da diversidade.
Da hierarquização social e dos seus princípios (e meios e fins), até aos conceitos de pecado e crime, passando pela polémica desencadeada por uma obra que retrospectivamente pode ser considerada avant-garde. Estas situações têm em comum a expressão de imaginários colectivos ou mentalidades individuais dogmáticas, ensimesmadas, redundantes.
De tempos a tempos, o direito à diferença é reclamado. Acontece que as próprias diferenças são diferentes entre si. Quer isto dizer que enquanto uma das partes é politicamente correcta, moralmente aceite e socialmente estabelecida, a outra pode ser o contrário de tudo isso. Falta questionar os fundamentos políticos, os decoros morais e as convenções sociais. Ou acreditaram no Poema em Linha Recta?
Há, geralmente e em particular, uma resposta directa que não inibe a incerteza filosófica e o debate intelectual nem ignora as evidências científicas. A outra é a negação de tudo isto, a penalização de uma opção cujas motivações individuais poderão ser discutidas ad æternum sem uma resolução conclusiva, mas que exige uma concretização em tempo real e útil.
Vive la Différence...

rotina

A fazer a tabuada, um dia, descobriste a resposta para todos os problemas da vida.
Nada mais vulgar.
Estranho seria que gastasses uma vida de estudo, observação e pensamento sobre o mundo, que passases anos de isolamento e escrita, que te afundasses no entendimento da arte desde as suas origens, na compreensão química de todos os fenómenos do corpo, que fosses para a rua de gatas olhar as pessoas, ou que te sentasses na almofada da sala a olhar para ti, meses, anos, uma vida. Invulgar seria fazer tudo isso para observar de soslaio uma nesga de resposta às tuas perguntas sobre o universo.

segunda-feira, novembro 20

Questões delicadas

Já no final de um discurso extremamente
grande homem de Estado engasgado
com uma bela frase oca
escorrega
e desamparado com a boca escancarada
sem fôlego
mostra os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.


Jacques Prévert, Discurso sobre a paz

domingo, novembro 19

o movimento da vida

"(...)Quando vocês me conheceram eu não dava sequer por vós, meio assustado ainda com a vida... Agora já muito pouco me assusta, ia dizer quase nada. Por isso abro mais vezes os olhos para vós e chego a pensar que me escutam. Foi tudo tão rápido embora eu goste de velocidades!!! E no meio de duas pessoas que se encontram como no meio de alguém que se encontra a si próprio há sempre um espaço qualquer que nem por poder ser muito pequeno deixa por isso de ser muito importante. Tão importante que se não existisse não havia o Mundo. Tenho pena de vos deixar assim... Mas não é o hesitar que faz o êxito. E muito menos o ser de tão longe. tenho-vos sempre na lembrança."

Mário Botas

quarta-feira, novembro 15

O fim do Estado

para o Diogo,

"O Estado, essa violância organizada, surgiu inevitavelmente num certo grau de evolução da sociedade quando esta, dividida em classes irreconciliáveis não teria podido subsistir sem um "poder" colocado pretensamente acima da sociedade e dela diferenciado até certo ponto.Nascido dos antagonismos de classe, o Estado torna-se o Estado da classe mais poderosa, da que domina do ponto de vista económico e que, graças a ele, se torna também a classe politicamente dominante e adquire assim novos meios de dominar e explorar a classe oprimida."

"Nem mesmo a forma mais livre e progressiva do Estado burguês, a república democrática, elimina seja de que forma for este facto, mas modifica-lhe somente o aspecto (ligação do governo com a bolsa, corrupção directa e indirecta dos funcionários da imprensa, etc). O Socialismo, levando à supressão das classes, conduz por isso mesmo à supressão do Estado."

"O primeiro acto no qual o Estado aparece realmente como representante de toda a sociedade - a tomada de posse dos meios de produção em nome da sociedade - é simultaneamente o seu último acto como Estado. A intervenção de um poder de estado nas relações sociais torna-se supérflua um sector após outro, e adormece então naturalmente. O Estado não é abolido, extingue-se."

Friedrich Engels - "A origem da família, da propriedade privada e do estado" e "Anti-Duhring"

sábado, novembro 11

Amélia

O Lado Errado da Noite é daquelas músicas que alimentam coisas. Porque o poema é quase um exercício de "Complete a seguinte história" e dá azo a que nas noites solitárias em que um cigarro não chega para companhia, uma pessoa se ponha a pensar no que terá acontecido às personagens. Inventa-lhes um nascimento, um destino final (e o poema é tão bom, que mantendo uma coerência lógica, nos permite até escrevinhar um possível enredo).
Catarina Resende fê-lo, num livro (D`O Lado Errado da Noite) onde escreve sobre cada umas das personagens, inventa outras e cria um romance acerca de um tema tão próximo - o aborto - que me fez ler o livro todo de seguida, numa aula perfeitamente horrível de Imagiologia. Foi daqueles livros bons. Mesmo bons. Sem ser um romance excepional, sem ter um estilo fora-de-série, tocou-me por ser tão palmaníaco. Qualquer um que, como eu, se apanhe a traulitar aquelas primeiras notas de piano (que me fazem sempre lembrar uma canção de embalar e me levam de seguida, sem intervalo, ao concerto no CCB, onde o Jorginho nos fez voar - lembras-te, Hugo?) , fica a olhar para o livro e agradece que alguém tenha mostrado que os poetas servem para isto: para a malta escrever por dentro e por fora.
Quando discuto o aborto e a sua despenalização, raramente me ocorre que a situação possa ocorrer a alguém perto de mim (whishful thinking, i guess). No entanto, ocorre-me sempre a desgraça da Amélia. E lido o livro de Catarina Resende, materializei-a, e tornou-se tudo ainda mais negro (ou claro?). As pessoas que votarão "Não" querem que a Amélia seja presa 3 anos. Isso magoa-me. E só fará com que o aborto clandestino continue a ser uma realidade. E com que histórias como a da Amélia sejam uma verdade incontornável dos lados errados da noite. Muito mais que uma mera metáfora que nos toca, e que podemos esquecer a seguir, quando começar a tocar a próxima música do CD.


"Santa Apolónia arrotava magotes de gente
Do seu pobre ventre inchado,
sujo e decadente
Quando Amélia desceu da carruagem dura e pegajosa
Com o coração danificado e a cabeça em polvorosa
Na mala o frasco de "Bien-Être" mal vedado
E o caderno dos desabafos todo ensopado
Amélia apresentava todos os sintomas de quem se dirige
Ao lado errado da noite

Para trás ficaram uma mãe chorosa e o pai embriagado
O pequeno poço dos desejos todo envenenado
A nódoa de bagaço naquela farda republicana
Que a queria levar para a cama todos os fins de semana
E o distinto patrão daquela maldita fundição
A quem era muito mais difícil dizer não
Amélia transportava todas as visões de quem se dirige
Ao lado errado da noite

Amélia encontrou Toni numa velha leitaria
Entre as bolas de Berlim com creme e o Sol que arrefecia
Ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante
E escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante
Mais tarde, no quarto da pensão, chamou-lhe sua mulher
Seria ele a orientar o negócio de aluguer
Toni tinha todas as qualidades para ser um rei
No lado errado da noite

Jonas está agarrado ao seu saxofone
A namorada deu-lhe com os pés pelo telefone
E ele encontrou inspiração numa notícia de jornal
Acerca de uma mulher que foi levada a tribunal
Por ter assassinado uma criança recém nascida
O juíz era um homem que prezava muito a vida
E a pena foi agravada por tudo se ter passado
No lado errado da noite"
O Lado Errado da Noite, Jorge Palma (1985)

quarta-feira, novembro 8

Analepse (Cores-Sépia-Preto&Branco)

07.11.2006

07.11.2006


07.11.2006


20.11.2005


20.11.2005

terça-feira, novembro 7

(os diálogos)

"(...)
Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores. Vagueava pelas ruas, entrava em todos os bares. Os bêbados formam uma maçonaria. Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas. Um deles disse-me que eu tinha um espírito religioso. Gostei, ficámos amigos, passámos a beber juntos falando do espírito religioso."Também eu sou um espírito essencialmente religioso", disse-me ele uma noite, quando já nos movíamos como batráquios num pântano de cerveja. E eu confessei que a minha juventude fora uma viagem violenta e fulminante através de medos e alegrias brutais."Estive no meio do escuro,não podia dormir. Ou tremia apenas do júbilo de ter um corpo, uma voz, de viver entre luz e chuva e grandes nuvens sobre os campos". O costume. Comecei a estar farto. Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória, para a obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Chateia-me ser um pequeno monstro sensível. "Merda", disse eu,"tenho uma cabeça firme. Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia". "Bebe", respondeu o amigo. "Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer". Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. Então fiz a mala. "Merda, merda, merda", sibilava baixinho. Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo, nem dá como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira."

in Photomaton & Vox, Herberto Helder