domingo, maio 18

Hot Fuzz

Uau.

UAU

UAU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Hot Fuzz (2007) é, sem dúvida alguma, o melhor filme que eu vi o ano todo!!!!!

E eu já vi muitos filmes este ano, e tenho a certeza que vou ver mais ainda, e ainda assim mantenho esta afirmação!!!

Quantos dos leitores viram o filme Shaun of the Dead (2004)?
Cinquenta?
Dez?
Vá lá, eu sei que das centenas de pessoas que me lêem todos os dias, alguma terá visto o Shaun of the Dead!
Anunciem-se nos comentários! Vá, não sejam tímidos!

Shaun of the Dead foi escrito por Simon Pegg e Edgar Wright, e é uma paródia a filmes de zombies. Já o mencionei aqui uma vez, e tenciono, eventualmente, escrever sobre ele. Mas teriam de ter visto o filme para compreender a frase seguinte:
Hot Fuzz é tão bom, ou melhor, como Shaun of the Dead!

Mas pronto, para as pessoas que não viram nenhum dos filmes, deixem-me explicar melhor.

O agente da Polícia Metropolitana Londrina, Nicholas Angel, é destacado para uma pequena aldeia rural da Grã-Bretanha profunda por ser demasiado bom no seu trabalho e fazer parecer mal os seus colegas por comparação. Em Sandford, Gloucertshire, Nick Angel vai deparar-se com o velho espírito comunitário das pequenas aldeias, uma estação de polícia da idade média e uma pacatez assustadora.
Habituado à acção brutal de Londres, Angel tem dificuldade em adaptar-se à pacatez, e o seu zelo policial entra em conflito com os agentes locais que não estão habituados a mais do que impedir que jovens da cidade façam graffitis na fonte da praça.
Mas rapidamente Angel começa a notar uma quantidade estranha de "acidentes" que ocorrem na pacata aldeia, e começa a suspeitar de um homicida entre os aldeões.

Obviamente que a história não se esgota neste resumo (que corresponde a cerca de 1/3 do filme) mas contar-vos mais seria a estragar a piada do filme. Mas confiem em mim quando vos digo que é surpreendentemente inteligente (definitivamente mais do que seria necessário para atingir os seus objectivos).
Mas não só é inteligente, como é surreal! Ultrapassa o surreal! Cresce de uma forma lenta, mas progressiva e inexoravelmente para um estado de absoluto caos e violência! A história consegue surpreender e superar as expectativas que se tem dela várias vezes durante o filme.
Como se isto não fosse suficiente, é ainda possível detectar nela (para quem se der ao trabalho de ver) uma exploração sincera, sem se tornar lamechas ou exagerada, da amizade, e uma análise assustadora das "pacatas aldeias rústicas" perdidas pelos interiores.

Em termos de humor, o filme está perfeitíssimo. Não cai nas piadas fáceis, e quando o faz, fá-lo com uma auto-consciência divertidíssima. Tem tudo, desde os trocadilhos, aos diálogos divertidos, às situações absolutamente surreais, o absurdo, a tolice pura. É extremamente divertido!!!

DS Andy Wainwright: You do know there are more guns in the country than there are in the city.
DS Andy Cartwright: Everyone and their mums is packin' round here!
Nicholas Angel: Like who?
DS Andy Wainwright: Farmers.
Nicholas Angel: Who else?
DS Andy Cartwright: Farmers' mums.

O filme tem um rol de actores excepcional! Começando por Simon Pegg e Nick Frost (ambos são também os protagonistas em Shaun of the Dead)) que são os dois excelentes actores e conseguem ter uma química incrivelmente credível. Vêm os dois da escola da comédia televisiva britânica, e isso nota-se na sua naturalidade e excelente capacidade para encarnarem as suas personagens.
Depois temos ainda Jim Broadbent (Moulin Rouge, Iris), Timothy Dalton (License to Kill), Paddy Considine (In America) e Bill Nighy (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest, Love Actually), bem como uma selecção de ilustres secundários que provavelmente vão reconhecer das imensas séries e filmes britânicos dos últimos anos.
Raios, até Cate Blanchett e Peter Jackson fazem pequenos cameos!

Hot Fuzz resulta numa paródia aos policiais de acção. Tem as perseguições, tem os tiroteios, tem as armas e as explosões (tudo numa pacata aldeia rústica).
Mas ao passo que outros filmes caem nos clichés inadvertidamente, Hot Fuzz exulta nos seus clichés! Enquanto que outros filmes fazem referências de uma forma disfarçada, quase escondida, Hot Fuzz dá-vos referências até sangrarem do nariz!
É uma festa de pequenos piscares de olho ou acenos de cabeça aos clássicos do género! Basta prestarem atenção e procurarem que vão encontrar referências às dezenas.
Mas talvez dizer que Hot Fuzz é uma paródia ao género do policial-de-acção seja uma injustiça. Hot Fuzz corrompe o género do policial-de-acção! Explora os seus pequenos defeitos e expõe-nos ao mundo.
Hot Fuzz aborda o género com rebuçados para ganhar a confiança dele, apenas para o drogar, vendar, atirar para o porta bagagem de um carro e depois, numa cave mal-iluminada, o violentar à bruta.

Até a banda sonora é um brinco! Rápida e barulhenta, a música imiscui-se no filme ao mesmo tempo que nos diz exactamente o que esperar do filme! As músicas não-originais foram todas refinadamente escolhidas para nos transportar para todos os filmes de acção que vimos ao longo da nossa vida.

Este filme é incrivelmente satisfatório em imensos níveis ao mesmo tempo! É fenomenal de quantas formas diferentes este filme foi tão bem pensado e tão bem executado!
É possível que não se goste deste filme. Mas é impossível negar que existe nele mestria cinematográfica!

Eu volto a repetir: o melhor filme que vi o ano todo!

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domingo, maio 11

Diary of The Dead

Tenho de admitir, aqui e agora, um vício meu: filmes de zombies.

Sejam eles bons, maus, ou muito muito maus, eu gosto de filmes de zombies! Sei que não é um bom hábito para um crítico de cinema (?) gostar de todos os filmes de um género independentemente de serem bons ou maus, mas eu gosto de todos os filmes de zombies. Regra geral, quanto piores melhor. Mas isso é uma teoria para outro dia qualquer.

O Diary of The Dead do mítico George Romero, é um bom filme de zombies. Eu repito: é um bom filme de zombies.

Posto isto, permitam-me elaborar.
Diary of The Dead tem a história previsível do mundo que fica subitamente invadido de zombies, o grupo previsível de sobreviventes que vai viajando à medida que vão perdendo mais e mais membros do seu grupo, e encontrando outros sobreviventes pelo caminho. As interpretações são previsivelmente mázinhas, e o filme tem todos os sustos previsíveis.
Este filme usa o cada vez mais enjoativamente popular truque de ser todo mostrado através da objectiva de uma câmara que uma das personagens manipula.
É totalmente óbvio nas suas intenções de fazer a nova geração de bloggers e youtubers sentirem-se bem no seu papel de jornalistas de trazer por casa. Para além disso o filme está pejado de pequeninas lições de moral mal disfarçadas que dão a sensação de terem sido inseridas na história com uma mistura de descargo de consciência pela necessidade de as fazer e embaraço por estar a fazê-las.

E eu repito mais uma vez: Diary of The Dead é um bom filme de zombies.
Porque dá aquilo que se espera de um filme de zombies, e, para um público alvo, não há nada mais gratificante do que ver as próprias expectativas atingidas.

E agora vou continuar a escrever. E faço-o com a perfeita consciência de que por esta altura já mais ninguém vai ler nada.

Porque é que os filmes de zombies, especificamente, são tão populares? Porque é que os filmes de zombies aparecem mais do que os filmes de vampiros, lobisomens, múmias ou alienígenas? (digo isto sem ter feito a mais pequena pesquisa, por isso corrijam-me se eu estiver errado).

Eu não sei. (estavam à espera de quê?)

Mas vou tentar adivinhar. (outra vez, estavam à espera de quê?)

Os zombies, classicamente, são monstros mortos-vivos que se mexem devagar e querem comer cérebros (ou só carne humana, no geral).
Porque é que são assustadores? Porque é que são fascinantes?

Uma ideia que me vem à cabeça é que, sendo que as pessoas acreditam em fantasmas ou espíritos porque isso lhes responde ao medo de que a morte será o fim absoluto, então os zombies são uma perversão dessa resposta.
Em vez de morrermos e voltarmos como um espírito flutuante e etéreo, com a desvantagem relativa de ter de assombrar um apartamento T1, corremos o sério risco de nos transformarmos num cadáver em putrefacção, fedorento e com apetite de massa encefálica.

Outro factor, diria eu, é a ideia do canibalismo. Pessoas a comerem pessoas. Está bem que são pessoas mortas, mas a ideia ainda está lá.
Ou então é mais do que isso. Uma vez li um artigo (não me perguntem onde) que afirmava que uma das formas que o homem primitivo teria de lidar com os seus mortos seria comê-los. Quando um austrolopiteco morria, os outros austrolopitecos comiam-no. Afinal, éramos necrófagos, no princípio. Talvez o medo dos zombies surja da reversão dessa ideia enraízada na nossa memória primitiva, de que somos nós que comemos os mortos e não o contrário.
Isto parece estúpido (muito) mas quando vejo quão primitiva e basal é a ideia de pessoas comerem mortos vs. mortos comerem pessoas consigo dar-lhe validade.

Mas, pessoalmente, o que me mete medo nos zombies não é nada disto.
Um gajo meio-mutilado a andar devagarinho contra mim não me mete muito medo.
100 gajos meios-mutilados a andar devagarinho contra mim faz-me perder o controlo dos esfíncteres.
É a noção de números! De que há MUITOS zombies. Centenas, milhares, milhões. Pelo mundo todo. De que por mais que fujamos nunca vamos fugir o suficiente. De que nunca haverá um lugar seguro, porque eles estão em todo o lado. De que eles serão sempre mais do que nós.

De que, pura e simplesmente, não há balas suficientes.



Ps: os melhores filmes de zombies de sempre (alguns dos quais eu planeio abordar aqui, eventualmente):

Night of the Living Dead (1968) - (o primeiro, que me acagaçou totalmente quando eu tinha 11 anos)
http://www.imdb.com/title/tt0063350/

28 Days Later (2002) - não é um filme de zombies, para os puristas
http://www.imdb.com/title/tt0289043/

Shaun of the Dead (2004) - absolutamente genial
http://www.imdb.com/title/tt0365748/

The Walking Dead - não é um filme, mas merece estar aqui
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Walking_Dead

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